A manifestação espiritual é um delírio?

Esse assunto envolve muita polêmica e até discussões. Com isso, ele pode provocar a segregação de algumas instituições religiosas e também estereotipar as religiões que expressam a sua espiritualidade de forma mais concreta e visível.

Também pode-se entender o quanto esses comportamento são estranhos para quem vê por um outra perspectiva, comparando-os com sintomas de doenças mentais e histerias. Para entender o que é isso, é preciso aprender sobre os dois lados da moeda.

O que é espiritualidade?

Basicamente, a espiritualidade é o modo como cada pessoa se relaciona com o mundo ao seu redor e consigo mesma, incluindo a natureza, as outras pessoas e a vida como um todo. Portanto, o modo como vivemos a espiritualidade é racional, ela não é pura emoção.

A espiritualidade é fundamentada em uma filosofia pessoal, que seria como a lente pela qual vemos o mundo. Todas as pessoas são espirituais em algum nível. Sendo assim, a espiritualidade nem sempre está relacionada com uma religião.

A sensibilidade para o equilíbrio pessoal, a beleza e a harmonia só são trabalhados e melhorados com a espiritualidade. Por isso, ela é essencial para saúde mental. Com ela, damos valor a música, a arte e a meditação, entre outras coisas.

A espiritualidade interfere na saúde integral, afetando o corpo e a mente. Para muitos casos, ela pode definir a cura ou a morte, porque interfere diretamente na mente, e a mente é nosso cérebro, e o cérebro coordena o corpo inteiro.

Estudos realizados pelo neurocientista norte-americano Andrew Newberg, comprovam que o exercício da espiritualidade é poderoso para curar doenças físicas e coopera para o convívio social. Além disso, pesquisadores da Moffitt Cancer Center, perceberam que quem acreditava numa força superior têm mais saúde física e mental do que os incrédulos.

“uma exaustiva análise de mais de 1.500 estudos médicos respeitáveis indica que as pessoas que são mais religiosas e oram mais têm melhor saúde mental e física.” (Andrew Newberg)

Se as pessoas que acreditam em um ser superior têm mais saúde mental, como algumas parecem perder o controle em alguns eventos? Como ficam fanáticas ou loucas? Para entender isso de forma bem clara, nada melhor que ver como o cérebro se comporta em momentos espirituais e em momentos de delírios.

Atividade cerebral na manifestação espiritual

A oração leva o sujeito à uma estado alterado de consciência, que é  momentâneo e induzido pela própria vontade. Neste caso, a pessoa com essa alteração, volta ao estado de consciência posterior quando quer.

A alteração da consciência em um momento de espiritualidade revela emoções, intensões e desejos que antes estavam ocultos para a pessoa que ora, pois ela exerce uma profunda reflexão sobre si mesma no mundo através da ótica do divino. Além disso, tem aumento significativo na sensação de bem-estar e de segurança, como foi explicado no artigo O que acontece com meu cérebro ao orar.

Não só durante esse momento de oração as mudanças são sentidas, mas também depois que termina. Devido a isso, experiências como essa cooperam para o aumento da sensibilidade em perceber o mundo e as pessoas ao redor. Um compreensão melhor das circunstâncias e também maior lucidez sobre escolhas e ações são consequências da espiritualidade.

A oração oferece resultados semelhantes aos resultados da meditação. A diferença entre elas é que na meditação a pessoa olha para dentro de si, enquanto na oração a pessoa olha para um ser transcendente. Enquanto isso, na mediação, foca-se unicamente nas ações do sujeito diante do mundo.

Na oração, a divindade oferece uma reação que transcende a ação do homem, oferendo maior sensação de segura. Por estar se relacionando com o outro (a divindade), na oração o cérebro entende que está acontecendo um relacionamento de diálogo, produzindo a sensação de proteção e amor.

O Dr. David Spiegel, que é diretor do Stanford Center on Stress and Health, explica que essa alteração cerebrais podem sem vistas em ressonâncias magnéticas. As regiões reflexivas são ativadas e as regiões responsáveis pela ação física têm a atividade diminuída, o que explica tremores e até mesmo algumas quedas que acontecem durante os momentos de exercício espiritual.

“Rezar envolve as partes mais profundas do cérebro: o córtex pré-frontal medial e o córtex cingulado posterior – as partes do meio, da frente e de trás” (Dr. Spiegel)

As orações/rezas focam a atenção para fora de si mesmo. Em momentos de estresse, o sistema límbico se torna hiperativo e nos leva à um modo de sobrevivência pelo qual lutamos, fugimos ou ficamos paralisados, nos impedindo de pensar com clareza. Com isso, o Dr Spiegel, afirma que ao orar, a maior atividade no cortex pré-frontal torna o sujeito mais racional e capaz de controlar impulsos.

Atividade cerebral no delírio

No delírio, cada pessoa tem o seu próprio. Portanto, dificilmente diferentes pessoas viverão o mesmo delírio, já que o delírio vem de uma profundidade psíquica individual. A nossa psiquê é resultado de diversas interferências, principalmente familiares.

Diferentemente das sensações espirituais, o delírio é incontrolável. Por isso, a pessoa que o tem, terá dificuldade em diferenciar as suas fantasias da realidade, geralmente consegue fazer isso apenas com orientação psicológica. Além disso, ele pode ser induzido por drogas e/ou acontece em qualquer momento do dia, sem que a pessoa se esforce para tê-lo.

Geralmente os delírios causam sensações de pavor e medo ou um pensamento exagerado de grandeza sobre si mesmo. A intensidade das emoções deixam o pensamento confuso e desordenado, produzindo até teorias da conspiração. Algumas cuidados pessoais, podem ser negligenciados e também a pessoa em delírio pode oferecer risco àqueles que estão perto.

Uma pesquisa divulgada no Journal of Neuroscience entende que o metabolismo alterado da glicose no cérebro pode ser um dos fatores desencadeantes do delírio. Outros estudos apontam que em casos de infecções bacterianas ou virais, bem como o nível de oxigenação cerebral alterado, podem mudar o funcionamento do cérebro causando delírios.

No delírio pode acontecer uma redução na conectividade do hipocampo e do córtex retrosplenial. Essas áreas são responsáveis pela regulação de emoções, formação de memórias e funções perceptivas. Por isso, são influenciadoras importantes no delírio.

Como saber a diferença?

Imagine-se entrando em uma igreja de 500 pessoas. Todas elas estão falando “sozinhas”, algumas chorando muito, outras rindo e algumas até caindo no chão. Seriam as 500 pessoas delirantes? Seria esta uma reunião de “loucos”? Essa constatação é muito improvável e não tem relação alguma com os estudos científicos realizados sobre o tema.

Estar envolvido em um ambiente religioso intensifica ainda mais as sensações emocionais, por isso lembranças e sentimentos provocam alegria extrema ou choro. A alta concentração também pode desestabilizar ações motoras, causando tremores e outros movimentos involuntários.

Algumas doenças psiquiátricas também podem causar essas reações, é possível ver as consequências posteriormente aos comportamentos. A espiritualidade gera autonomia, responsabilização, segurança, melhora a habilidade de tomada de decisões e a regulação do humor. Enquanto isso, delírios e alucinações tendem a provocar o oposto: sensações de insegurança, dependência, impulsividade, humor desregulado, raciocínio confuso, entre outros.

Pode haver pessoas delirantes no meio espiritual, assim como podem estar em qualquer outro lugar. O delírio pode ser confundido com a espiritualidade por quem vê de fora, já que não é possível ver quais sentimentos e pensamentos o outro tem. A manifestação espiritual não é um delírio, mas ambos podem ser confundidos. A maior diferença está na atividade cerebral, que não pode ser manipulada e nem ter interpretações subjetivas nas pesquisas realizadas a respeito.

Author:
Teóloga e estudante de psicologia. Com experiência em dependência química, transtornos alimentares e relacionamentos conjugais e familiares.

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