Quando o luto vira depressão

O processo de luto envolve um sofrimento intenso, que pode durar dias, semanas ou meses. Por deprimir, provocar tristeza contínua e desânimo de viver, se assemelha muito a depressão.

Algumas pessoas enlutas permanecem neste sofrimento intenso por muito tempo, se configurando em uma depressão. Mas como saber se isso está acontecendo? Primeiro, é preciso entender a diferença entre luto e depressão.

O que é luto?

O luto acontece quando perdemos algo que amamos. Embora seja mais comum pensar em pessoas queridas, o luto também pode acontecer em outras situações, como perder o emprego, mudar-se de cidade ou terminar um relacionamento. Mas o mais importante para entender, é que sempre existe a perda de algo que era importante e o vazio que essa perda deixou é o luto.

Uma psiquiatra suíça chamada Elisabeth Kubler-Ross, entendeu que o luto era processo que tinha 5 fases: negação, raiva, barganha, depressão e, finalmente, aceitação. O vídeo a seguir, deixa um pouco mais claro como é cada fase.

Essas fases não acontecem necessariamente na mesma ordem, elas se perpassam e se misturam. A finalidade de todas elas é a elaboração do luto. Elaborar o luto é aprender a viver sem aquele ou aquilo que amamos, para isso é preciso construir novos sentidos e novas atividades que irão preencher um pouco daquele vazio que a perda deixou.

A saudade sempre irá existir, na maioria dos casos. Entretanto, o sofrimento vai diminuindo naturalmente ao longo desse processo de elaboração e, com o passar do tempo, a vida vai ganhando outras cores. Mesmo com a perda, a pessoa enlutada consegue reconhecer as partes boa da vida.

O que é depressão?

Na depressão é um pouco deferente, ainda que o sofrimento inicie despertado por uma causa específica, como a morte de uma pessoa amada ou o término de uma relação, ele continua e se expande por todas as áreas da vida até que tudo seja motivo para sofrer.

Assim, a pessoa deprimida sente-se desanimada e sem interesse nas coisas que lhe fazia bem, dá mais ênfase nas partes ruins e tristes da vida, do que nas partes boas. Por isso, não tem um objeto ou pessoa responsável pelo sofrimento. A tendencia do deprimido é ficar cada vez pior, a menos que mude seus hábitos e inicie tratamento psicológico.

De acordo com o Manual Diagnóstico e estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), na depressão, outros sintomas além da tristeza e do desânimo podem aparecer, como: irritabilidade, insônia ou hipersonia, mudanças de apetite e dificuldades de raciocínio. Algumas dores físicas sem motivos comprovados também podem surgir, é o que chamamos de somatização.

A depressão é uma doença, é uma alteração química no sistema nervoso central. Os neurotransmissores Noradrenalina, Serotonina e Dopamina ficam desregulados. Devido a isso, a medicação se faz necessária. A condição genética também tem uma alta influência na disposição à depressão.

O processo de adoecimento

Ao perder alguém ou algo, sofrer é natural e esperado. O sofrimento vai diminuindo ao longo de um período singular, necessário para a elaboração do luto. Mas sempre o sofrimento diminui, em alguns casos ele pode ficar ainda mais intenso e até induzir à vícios em drogas, sexo, jogos…

Não saber lidar com o sofrimento é algo que pode provocar depressão. Algumas pessoas podem entender que, ao sofrer, deus ou o mundo estão contra ela. Aprender a se frustrar é necessário, quando pessoas não aprendem isso na infância, dificilmente aprenderão durante a adultez.  Ao precisar lidar com frustrações, não sabem como reagir e ficam presas a elas.

A morte é uma frustração com a vida e a perda é uma frustração com a nossa incapacidade de controlar tudo. Esses fatos podem ser intolerados por algumas pessoas e isso leva a doenças. O fato de serem questões que nos perseguem a vida inteira, deixa tudo ainda mais insuportável.

Falta de elaboração da perda é algo que deixa muitas marcas no enlutado e pode causar depressão. Elaborar a perda é aprender a viver sem aquele ou aquilo que amamos, para isso é necessário encarar o vazio. Somente encarando o vazio, é possível preenchê-lo novamente com outras coisas ou pessoas.

Como seguir em frente

Nenhuma pessoa ou coisa trará as mesmas emoções e sentimentos que tinha antes da perda. Isso é algo que precisamos aceitar, mas não significa que nunca mais haverá alegria. Não haverá mais aquela alegria, mas haverão outras alegrias, igualmente especiais e que valem a pena serem vividas.

Olhar para o futuro e planejá-lo é essencial para passar por essa fase. Ficar preso no passado e na dor, sentindo-se injustiçado pela vida, é um belo atalho para a depressão. É natural sofrer assim por algum tempo, mas isso precisa passar, caso contrário, vira depressão.

Não existe um tempo estimado para definir quando a depressão se torna luto. Depende de como é o perfil da pessoa enlutada, cada um vive o luto de maneiras diferentes. Por isso, o acompanhamento psicoterápico é importante para o diagnóstico e tratamento. A intensidade e a quantidade de sintomas é avaliada para definir se esse sofrimento é patológico ou não.

Author:
Teóloga e estudante de psicologia. Com experiência em dependência química, transtornos alimentares e relacionamentos conjugais e familiares.

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