Vitimismo, culpa e manipulação nos relacionamentos

A manipulação pode ter outras faces além da aparência agressiva. Quando falamos sobre relacionamentos abusivos, as pessoas tendem a pensar mais na violência moral e na agressividade. Esquecem do vitimismo, uma das formas de controle mais utilizadas atualmente, até mesmo em assuntos políticos.

É possível ficar anos sofrendo uma manipulação desta natureza sem perceber o que, de fato, está acontecendo. Isso é uma agressão psicológica e nem sempre o agressor tem clareza dos atos que pratica e das consequências deles.

Geralmente, a vitima sente que algo que está errado na relação, se sente infeliz e culpada, sem entender muito bem o motivo de tudo isso. A relação está ruim, o sentimento pode ter acabado, mas algo a prende. Estar com a pessoa vitimista não é prazeroso, pode se tornar apenas um hábito sem sentido.

Vitimismo como arma

Geralmente, o vitimismo é bastante vantajoso. O vitimista consegue o que quer utilizando a pena/compaixão alheia, sem precisar de muito esforço, além de contar umas boas histórias. A sua manipulação é tão eficaz, que quando alguém apenas o questiona, pode ser vista como um vilão frio e desalmado.

O vitimista é poupado de criticas, já que convence as pessoas que seu sofrimento é intenso e genuíno, até mesmo para as situações mais corriqueiras e insignificantes. Seus atos são justificados pelo sofrimento que carrega, com isso ele pode fazer e exigir o que quiser.

Como pensam os vitimistas

O vitimista deforma a realidade, colocando a culpa de seus desprazeres em outras pessoas, no governo, em Deus, jamais em si mesmo. Ele realmente acredita que não tem controle sobre as coisas que acontecem em sua vida. Por isso, não sente culpa nem se vê como uma pessoa responsável.

Então, à ele só resta lamentar. O lamento atrai olhares, atenção e, até mesmo, carinho. O resultado do lamento é prazeroso, por isso esse comportamento se perpetua. Quem se relaciona com um vitimista, já sabe o que esperar quando encontrá-lo, a conversa se resume em suas dores e nas injustiças que sofre.

Ele se sente discriminado e maltratado por qualquer pessoa que o critique ou, até mesmo, expresse uma opinião diferente da dele. Qualquer sinal desperta seu sofrimento e ânsia em lamentar a suposta injustiça. Conviver com alguém assim pode anular o parceiro que, para evitar o sofrimento do outro, irá fazer e dizer tudo o que ele quer.

O vitimista constrói um circulo limitado de pessoas intimas. São as pessoas que caem em suas chantagens emocionais. As demais são, para ele, pessoas de má fé, que querem o prejudicar.

Como manipulam

O vitimista costuma explorar a empatia da outra pessoa para fazê-la sentir compaixão ou culpa. Ao afetar a empatia do outro, faz parecer que tudo o que faz ou diz é bem-intencionado e verdadeiro. Focam em momentos e discursos específicos para parecerem injustiçados, tirando da pauta os seus próprios erros.

Nem sempre o sofrimento motiva o comportamento vitimista, também pode ser raiva, inveja ou ciúmes. A intenção nem sempre é consciente, alguns simplesmente nem percebem mais a manipulação que fazem, acreditando realmente que são vitimas.

O vitimista não costuma falar diretamente o que quer, envia mensagem indiretas e queixas. Tenta desclassificar os argumentos do outro, direcionando-o indiretamente a assumir uma culpa ou uma responsabilidade que não tem. Em cada conversa a outra pessoa pode ter a impressão de que é responsável pelo sofrimento do vitimista.

O vitimista é bastante desconfiado. Já que entende que o mundo é cruel e que as pessoas não são boas, sempre espera pelo pior. Com frequência ele te alerta sobre as más intensões das pessoas ao redor e as vê em qualquer situação.

Ele faz grandes sacrifícios por outras pessoas, sem que ninguém tenha pedido. Depois disso, usa seus atos para explorar a gratidão e exigir favores e lealdade. É mais uma forma de manipulação.

Como lidar com um vitimista

A melhor forma de lidar com um vitimista é mantendo-se firme às suas convicções, para que ele não consiga te manipular. Tenha clareza do que você disse e do que você quer, para não assumir culpas e responsabilidades que não são suas.

O vitimista tentará te transformar em um vilão, se você não cair nas manipulações dele. Muitos vezes ele vai conseguir, mas tenha em mente que as pessoas que realmente importam estão ao seu lado e não se deixe abalar por isso.

Ele pode ser persistente, um verdadeiro chato, te fazendo sentir raiva e cansaço. Por isso, tenha paciência e não permita que essa situação te controle por suas emoções. Quanto mais estável você estiver, mais instável ele ficará. Se ele não se afastar, você pode e deve fazer isso.

O vitimismo na Bíblia

Podemos ver situações de vitimismo em algumas trechos bíblicos também, começando pela história de Adão e Eva.

E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. (Gênesis 3:11,12)

Adão deliberadamente colocou a culpa em Deus quando comeu o fruto da Árvore do Conhecimento, dizendo que foi Deus que lhe deu a mulher que o tinha lhe oferecido o fruto. Tirou o foco da sua ação de comer o fruto e direcionou o assunto na tentativa de se esquivar da culpa, colocando-a em Deus.

Disse Caim ao Senhor: “Meu castigo é maior do que posso suportar. (genesis 4:13)

Caim matou seu irmão Abel após Deus ter recusado a sua oferta. Deus avisou Caim, para tomar cuidado e não pecar, informando que se o fizesse, castigos viriam. Mas, Caim levou o irmão para o campo e lá o matou.

Quando Deus o questionou sobre o irmão, ele fingiu que nada sabia, esquivando-se da responsabilidade. Mas Deus não se deixou levar por isso e o castigou. Quando percebeu que sua mentira não tinha lhe beneficiado, ele apelou para a vitimização, colocando o seu sofrimento em pauta na tentativa de mudar a decisão de Deus.

Com esses exemplos, fica mais fácil entender como o vitimismo se apresenta em seus detalhes na vida cotidiana. A manipulação é bastante sutil, por isso tão difícil de ser percebida em nossos relacionamentos.

Author:
Teóloga e estudante de psicologia. Com experiência em dependência química, transtornos alimentares e relacionamentos conjugais e familiares.

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