Como enfrentar o luto em perdas repentinas

A morte não nos lembra apenas do fim e não nos remete somente a ausência, mas principalmente, nos faz refletir sobre toda a vida que emergia e que afeta ainda que não esteja materialmente nos tocando. A dor que fica durante o luto, é a dor de esperar o outro e não vê-lo chegar, olhar fotos e outros objetos particulares encontrando vida neles, mas sem saber o que fazer com ela, também ter algo cotidiano para falar-lhe e não poder.

Assim, os nossos habitos cotidianos e naturalizados são cortados bruscamente. É a presença que está pulsando em nós, mas está morta fisicamente. É uma presença pela metade, mas tão intensa quanto antes.

A morte é inevitável, mas o fato de alguém morrer pode ser emocionalmente mais suave ou menos doloroso, principalmente quando existe a possibilidade de um acompanhamento desde a descoberta da doença até o seu fim.  E certamente, nesse processo, quem está passando pelo luto também busca amparo, seja nos médicos, na religião, nos amigos ou nos parentes.

Quando ocorre o processo de luto

Resultado de imagem para consoloPorém o processo de luto que ocorre antes da morte, tanto pelo doente que vai perdendo gradativamente sua vida social, profissional e pessoal, quanto pelos familiares tem sua importância para que haja uma adaptação situacional. Os sentimentos nesses estágios são fundamentais para o processo do luto após a morte, ainda que sejam desagradáveis.

O processo de luto por perdas graduais se inicia antes mesmo da concretização da morte, possibilitando que o sujeito enlutado administre a falta, construindo um progressivo desapego. A partir disso, os afetos que eram direcionadas a essa pessoa, será gradualmente direcionada a outras pessoas e atividades,  formando novas ligações, que permitem ao sujeito viver uma nova ordem de realidade.

O processo de luto inicia, então, quando há uma modificação na rotina diária, provocando a alteração de alguns momentos afetivos, pelos quais novos afetos serão relacionados. Para superar o impacto que a morte de uma pessoa querida provoca, também é importante a fé nas crenças, sejam elas religiosas ou até mesmo filosóficas e morais.

Algumas crenças, principalmente a cristã – mais comum em nossa sociedade – colaboram para que o processo de luto seja menos desgastante. Esse processo pode ser compreendido lendo o artigo Luto, cristianismo e psicologia.

A mudança indesejada

Segundo o jornal G1, o Brasil tem mais de 3,5 mil mortes de trânsito por mês, uma média de  11 mil suicídios por ano e 6,5 mil mortes anuais por afogamentos, entre outras situações que causam mortes instantâneas e inesperadas, como overdoses, choques elétricos e quedas.

Diante deste cenário, pedaços de muitas famílias são arrancados bruscamente. Os familiares e amigos próximos enfrentam muitas mudanças, pelas quais não escolheram ou imaginavam passar e que os colocam em circunstâncias de sofrimento intenso.

Sobre perder e morrer

Ter consciência da perda e do morrer é um processo gradual e necessário na vida de todas as pessoas. Não é sem motivos que muitos antropólogos, teólogos, psicólogos e demais estudiosos da vida e das relações humanas se concentram em estudar sobre a morte e a temporalidade da vida.

Michel de Montagne (1580) afirma que as pessoas vão aceitando a finitude na medida em que vão perdendo os prazeres da vida. Sendo assim, a morte após algumas limitações físicas, pode ser considerada como uma fuga do sofrimento. Entretanto, é percebida como um castigo, quando o sujeito ainda tem saúde e muitas possibilidades de futuro. Independente do modo como aconteceu a perda, o sofrimento sempre é presente, porém o modo como se lida com a perda é singular e subjetivo.

Freud caracteriza o luto como um conjunto de processos psicológicos com o foco em (re)construir vínculos e dar novos sentidos para a vida, analisando todo o sofrimento que a situação de perda provoca. Quando nos relacionamos com alguém, permitimos que essa pessoa receba todos os nossos afetos – sejam bons ou ruins.

Esses afetos, junto com comportamentos e desejos, vão fortalecendo a relação na medida em que ela é vivenciada. Porém, quando esta pessoa morre continuamos sentido os mesmos afetos, continuamos tendo os mesmos desejos, só que agora não temos mais aquela pessoa para compartilhar e vivê-los conosco.

O desejo desfalece. Abre-se um buraco afetivo/emocional bem debaixo dos nossos pés, que causa um sofrimento intenso e também desorientação ao pensar no futuro. Diante disso, é necessário construir novos desejos ou adaptar nossos desejos antigos a realidade presente.

A perda por morte súbita toma outros rumos, como o despreparo, sem que haja tempo para reflexão, adaptação e a despedida. O sujeito que recebe a notícia da morte de um ente, vê-se sem saída, sem vontade de viver, ou corre em busca de justiça para vingar-se, ou questiona sobre o porquê de tamanha brutalidade ou simplesmente se esvaneci-a da sociedade afundando-se no poço de si mesmo.

A negação da situação é um fato comum que se dá nas primeiras semanas da perda além do sentimento de culpa que algumas pessoas sentem por não terem feito algo que pudesse mudar o ocorrido.

Processo de elaboração do luto

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Existem três modos mais comuns de lidar com o luto. O mais saudável é a elaboração, pela qual o sujeito compreende a perda do objeto, produzindo novos afetos e administrando seus desejos sem prejuízos sociais e psíquicos.

Outras formas de suportar o luto são a fuga ou negação, pela qual o sujeito direciona os mesmos afetos que tinha pela pessoa que morreu em outros situações sem pensar ou compreender esta ação. É por meio desta troca que muitas pessoas começam vícios, trocam a presença de alguém querido por drogas, jogos, pornografia, compulsão alimentar ou qualquer outra atividade praticada em exagero.

Também pode acontecer de direcionar esses sentimentos para outra pessoa, a colocando em um lugar na sua vida que é inapropriado e que causara sofrimento a ambos. Assim, a pessoa enlutada direciona seu apego a outro objeto.

 O terceiro estado de enlutamento, e talvez o mais adoecedor, é quando o sujeito se encontra incapaz de movimentar os seus afetos para outro objeto, assim ele se prende de tal forma ao objeto perdido que não consegue perceber outras possibilidades de deslocamento.

Todas essas atitudes, tanto as positivas, quando as negativas partem de uma necessidade de ocorrência. Pois, cada uma em seu tempo, são necessárias para auxiliar o sujeito em desenvolver ou reencontrar a significação profunda de sua vida, que construída por ele.

Com o passar do tempo, este luto deve ser encarado e consentido, assim assumindo o fato para não continuar sendo exposto a sofrê-las. Todo o mal e todo o bem que ocorrem têm uma repercussão em todos que vivem. É por meio desse sofrimento que a consciência cresce, se aprimora e se aprofunda, fortalecendo o sujeito em suas crenças, encontrando um novo sentido para sua vida.

 

Author:
Teóloga e estudante de psicologia. Com experiência em dependência química, transtornos alimentares e relacionamentos conjugais e familiares.

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